Afonso de Carvalho no Grupo Pro-Évora e no jornal O Giraldo

Afonso de Carvalho no Grupo Pro-Évora e no jornal O Giraldo - Marcial Rodrigues

 


Afonso de Carvalho no Grupo Pro-Évora e no jornal O Giraldo

Na obra historiográfica do nosso saudoso amigo Afonso de Carvalho, além da publicação dos três volumes de Da Toponímia de Évora e do estudo As Mancebias em Évora no Antigo Regime, há aspectos menos conhecidos e que é de toda a justiça divulgar. Farei duas breves alusões à sua participação no Grupo Pro-Évora e no jornal O Giraldo.

Afonso de Carvalho foi admitido como sócio do Grupo Pro-Évora no dia 19 de Fevereiro de 1979, quando o arquitecto João Raul David presidia ao Grupo. Desempenhou o cargo de Secretário do Conselho Fiscal desde ano de 2006 até ao de 2015. Participou em diversos debates realizados na sede do GPE sobre questões relacionadas com o património cultural eborense, sendo de destacar a sua intervenção no ciclo de conferências e debates que o GPE promoveu sobre o Rossio de S. Brás, nos meses de Setembro e Outubro de 2001, depois de a autarquia eborense apresentar um projecto de arquitectura que incluía diversas edificações naquele espaço, e que transformaria o Rossio numa praça urbana semelhante a tantas outras. Foram oradores, neste ciclo, além do dr. Afonso de Carvalho, os arq.tos Gonçalo Ribeiro Telles, José Lamas e Maria da Conceição Freire e os drs. Jorge Oliveira e Paulo Simões Rodrigues.

 

Afonso de Carvalho fez uma comunicação intitulada O Rossio de S. Brás – fragmentos de uma história urbana, na qual apresentou o “Rossio de Évora numa perspectiva histórica”, considerando também “os rossios de algumas povoações portuguesas e a diversidade de soluções urbanísticas na sua evolução ao longo dos tempos”, concluindo com uma “breve análise dos centros e periferias em Évora do século XII ao século XIX”(1).

 

Do Livro de Actas da Assembleia Geral do GPE, citemos, da reunião de 15 de Janeiro de 2003: “o Dr. Afonso de Carvalho referiu várias situações, mormente o tipo de calçada adoptado pela Câmara; a descaracterização das fontes da Rua João de Deus e Jardim das Canas(2); o desenquadramento ecológico de locais e situações, como a ribeira da Torregela (…) e o fumo exagerado dos autocarros” urbanos. Da reunião de 15 de Janeiro de 2005: “O Dr. Afonso de Carvalho propôs que o GPE apresentasse à Comissão de Toponímia de Évora a sugestão da atribuição do nome do Cónego Alegria a uma rua de Évora” [o cónego falecera no ano anterior].

 

Estas intervenções de Afonso de Carvalho em prol do património eborense marcam também a sua presença no jornal O Giraldo, que se publicou em Évora de 1986 a 1992. Dos 93 números do jornal, 20 contêm artigos do nosso historiador, o que o faz presente em 21,4% das edições do periódico.

 

Quando preparávamos a saída d’ O Giraldo, desafiei o meu colega na Escola Secundária André de Gouveia, antigo Liceu de Évora, para assumir, em alternância com Túlio Espanca, a secção Memória da Cidade, que tinha lugar reservado na página 3. A resposta foi positiva e Afonso de Carvalho assinava a sua primeira colaboração logo no segundo número do jornal – na ficha técnica, Afonso de Carvalho aparecerá como “colaborador permanente” a partir de Novembro de 1988.

 

Das vinte colaborações referidas, oito são sobre topónimos eborenses. Os outros doze referem-se a outros temas, que ilustram outras faces dos seus interesses historiográficos por Évora, como indiciam os títulos Públia Hortensia de Castro e Évora; Cristóvão Rodrigues Acenheiro, um historiador eborense da 1.ª metade do século XVI; Luís de la Penha, o mais célebre dos feiticeiros eborenses.

 

Em 1988, desafiámo-lo a escrever sobre a remodelação da Praça do Giraldo, então em debate. Afonso de Carvalho escreveu-nos quatro artigos para outras tantas edições: Remodelação da Praça do Giraldo, Uma Visão da História – I Do “Centro” Medieval à Praça Grande; II A Praça Grande; III Do Cavalo ao Automóvel; IV Praça Bem Amada, Mal Amada, Esburacada. Estas publicações denotam a importância que o conhecimento fundamentado tem para Afonso de Carvalho, quando nos encontramos perante intervenções actuais em realidades patrimoniais históricas e culturais.

 

Não quero deixar de lembrar uma outra “rasteira” que lhe passámos: quando o também nosso sócio (do GPE) Túlio Espanca foi doutorado Honoris Causa pela Universidade de Évora, em 1990, pedimos a Afonso de Carvalho que adoptasse a pena de jornalista e entrevistasse o laureado. E a verdade é que o fez, escrevendo três páginas d’ O Giraldo, sob o título Trajectos de uma obra – entrevista a Túlio Espanca.

 

Afonso de Carvalho, historiador, sim – mas, sem nunca deixar esta sua qualidade, também cidadão empenhado na sociedade em que viveu, seja pela vida associativa na defesa do património cultural, seja pela colaboração activa numa comunicação social que desafiava as inércias vigentes – entre outras facetas que a sua personalidade certamente guardava.

 

Muito obrigado pela vossa atenção.

 

Évora, 2021.12.09

 

Marcial Rodrigues

 

 

  1. Extraído da folha de resumos das conferências do dia 21 de Setembro de 2001, publicada pelo GPE para a ocasião.
  2. Calçada e fontes intervencionadas no âmbito do Projecto de Requalificação Urbana do Centro Histórico de Évora, que a autarquia vinha desenvolvendo desde 1997.

 

 


Ler mais sobre o tema:

Comunicação de Apresentação do livro do professor Afonso de Carvalho "Da Toponímia de Évora - século XVI - Vol.III", pelo Dr. Manuel Branco, na Biblioteca Pública de Évora.

"Guia de Escultura da Cidade de Évora"

imageEsta edição bilingue (português/inglês) localiza e identifica cerca de 50 esculturas públicas. Com fotografias de Paulo Nuno Silva, mapas, fichas técnicas e textos introdutórios de Maria do Mar Fazenda, são propostos três percursos temáticos - Percurso Evocativo, Percurso Simpósio ’81 e Percurso (Re)Pensar a Cidade – que dão visibilidade e leitura às peças instaladas na cidade.

Este livro está disponível nas seguintes livrarias da cidade: Nazareth, D. Pepe, Salesianos e Fonte de Letras.

"Pela Biblioteca Pública"

imageRemonta a 1992 a intenção declarada, por parte dos responsáveis pela cultura em Portugal, de dividir a Biblioteca Pública de Évora, uma das mais notáveis do pais. Desde logo o Grupo Pro-Évora iniciou uma campanha de defesa desta instituição, a semelhança do que fizera aquando da sua fundação.
de Celestino Froes David e Marcial Rodrigues