Uma desarticulação com a realidade

No dia 12 de Dezembro de 2009, realizou-se uma conferência/debate na sede do Grupo Pro-Évora sobre o projecto“Espaço Público e Equipamento Urbano para a Acrópole de Évora e Área Envolvente, Acrópole XXI”, com a participação do Prof. Arq.º Gonçalo Ribeiro Telles e da Arq.ª Margarida Cancela de Abreu. Transcrevemos nesta página a intervenção oral do Prof. Ribeiro Telles, que, pelo tom coloquial que a caracterizou, com acompanhamento de imagens, resulta num texto escrito que coloca, nalguns pontos, uma ou outra dificuldade de leitura, que o entendimento do leitor certamente superará. Na próxima informação do GPE publicaremos a intervenção da Arq.ª MC Abreu e apontamentos do debate que se seguiu.

 

«Os aspectos da paisagem são muito importantes para o futuro, não só porque têm a ver com a vida das pessoas, como têm a ver com a própria qualidade de vida, com o abastecimento das pessoas, de uma forma geral, e com a possibilidade de o país existir. Evidentemente, todos estes aspectos não se notam aqui neste caso da Acrópole XXI, mas ela faz parte de todo um sistema que se está a criar em todo o país. E quais são as ideias do país do futuro, do país que pretende conquistar o futuro?...


Trata-se aqui de um objecto morfológico, um objecto que existe na cidade de Évora e que é uma colina. Essa colina, evidentemente, e como colina que é, e em face do povoamento e da intervenção do homem nesta região, sagrou-se. E o templo Romano está lá em cima.

Por um lado, entendemos aquela colina com uma determinada situação histórica e psíquica para a população, por outro lado, convém não destruir essas situações, para que as populações continuem a ser comunidades integradas num território, com amor por esse território, porque reconhecem a história desse território, conhecem a evolução e conhecem de facto a adaptação, a humanização constante e permanente do sítio onde vivem.

Mas, além de ser uma colina, já sagrada pela história e pelos tempos, é também um ponto dominante na cidade de Évora. Os pontos dominantes têm uma característica: muitas vezes só se nota o que se vê desse ponto de vista para fora – são os miradouros, para mirar qualquer coisa que está fora; mas esquecemo-nos muitas vezes de que esses pontos são vistos e pontados como faróis para quem está fora deles, e têm também um interesse extraordinário como posição para o território, como cidade organizada e como ponto para ser visto, e não só para ir ver a vista, é um ponto também para ser visto.

Ora bem, é esse aspecto duplo de ponto para ver, lugar dominante sagrado pela história, ponto que se deve assinalar e é identificado como um marco para toda a cidade e toda a região, que eu não vejo expresso no projecto, e que para mim era a primeira condição a ser considerada. Para dar exemplos: podemos apontar a presença das colinas de Roma com o pinheiro manso e o cipreste como pontos dominantes, acompanhando evidentemente estruturas arquitectónicas existentes; vamos para o nosso país, para Lisboa, consideremos a importância que tem o castelo visto do Rossio, mas também a importância enorme que tem o acompanhamento que se faz do castelo, num morro com um pinhal manso e um cipreste. Há sempre este aspecto que não é possível desligar do outro.

Julgo que há aqui um primeiro problema a apontar e que deve ser resolvido: como é que nós sentimos a colina sagrada em relação ao resto do território? Não é dentro dela, é como ponto dominante sobre a estrutura, sobre o espaço vivo que nos é dado, de que somos utentes e que queremos deixar aos nossos filhos, possivelmente com as mesmas referências (não quer dizer que as mesmas referências sejam marcadas exclusivamente por uma moda, mas que continuem a ser referências). Outra coisa: este é o primeiro ponto que eu devia dominar – como é que todo este sistema projectado se vê nesta cidade e donde se vê, porque uma vez que é uma colina sagrada e é um ponto dominante, é qualquer coisa que marca a cidade, não só do próprio local, como em toda a sua envolvência.

Outro problema muito importante também é que, de facto, isto é uma colina, uma colina é uma convexidade do território, sendo uma convexidade, toda a água que aqui cai, vai para fora, não é uma concha. Portanto isto tem que ser tratado como uma convexidade e não como uma concha. Todo o espaço que não é a arquitectura instalada inerte, tudo aquilo a que podemos chamar o espaço vivo e aberto, tem que ser tido em consideração; a consideração aqui da circulação da água é fundamental para a estrutura do projecto, o projecto tem que resolver esse problema, para que não se levantem problemas de escorrimento muito rápido para quem está por baixo e evidentemente que se resolva também o problema da própria superfície convexa donde parte essa água.

Não encontrei neste projecto a relação da colina e do templo com a cidade, quer sob o ponto de vista panorâmico, quer sob o ponto de vista estético, quer até sob o ponto de vista morfológico. O que é que de facto define as zonas convexas no Alentejo e no nosso país praticamente todo? São a existência de castelos, a existência de conventos, a existência de santuários, com romarias, a existência de qualquer coisa que integre isto na paisagem. E temos aqui uma colina na cidade de Évora que é convexa, que faz parte de um sistema seco – o que é que isso representa em termos dessa harmonia ecológica com o resto da paisagem? Este aspecto não pode aparecer aqui como ausência de relacionamento. Quem é que domina aqui, nas alturas, a parte do sistema natural das zonas convexas? Dominam, evidentemente, não os choupos, não os freixos, não as árvores de folha caduca, mas dominam muito, como em Itália, como na zona mediterrânica, o pinheiro manso, cipreste (...).

E assim eu penso que, na cobertura deste terreno, é muito mais importante, em vez dos relvadozinhos e deste decorativismo de canteiros, que haja um coberto vegetal harmónico com o resto da paisagem. Essa é que interessa aqui, no resto, teressa o máximo da simplicidade e o máximo da visibilidade do que é arquitectura, do que é história. Arquitectura de todos os tempos, sendo realizada muitas vezes com soluções que não eram concordantes com o que nós hoje pensamos, mas foram soluções da época. (...)

O que eu vejo é que deve haver uma relação à grande escala, não esta escala desta intervenção directa, mas à grande escala do problema panorâmico, do problema cultural, do problema propriamente da cidade como unidade, com pontos determinantes de interesse como são as colinas, e não vejo essa ideia expressa no que se chama projecto. É mais uma procura de decorativismo à volta de coisas a uma escala, que é ultrapassada, neste local, pelo génio deste lugar em relação a tudo o resto. Não é um problema de mais degrau, menos degrau, mais canteiro de flores…, é um problema de intenção, o que queremos ver na colina, naquela colina que nos marca, por estar lá o templo, por ser um ponto dominante da paisagem, pelas vistas, por vermos quem se aproxima e sermos vistos por quem vem de fora. É toda esta concepção que não pode ser realizada exclusivamente com sistemas inertes, quer dizer, com pavimentos impermeáveis, com paredes de tijolo, tem que ser resolvida com a sábia organização de um sistema natural de vegetação, que aqui é determinante pelo lugar em que se vai realizar esse sistema, determinante com tudo, com o momento, com o lugar e com a história. Eu julgo que o que este projecto tem é uma desarticulação com a realidade. Com a realidade psíquica, com a realidade panorâmica e estética do cenário urbano de Évora e com o próprio lugar. Assim não queria discutir uns canteirinhos de flores, nem mais degrau, nem menos degrau, nem o tipo de pavimento. Há que discutir o objecto. Que objecto é este? Qual é o génio dele? O que é que ele serve para nós? O que é que nos lembra? Onde é que nos liga? É isso que eu dificilmente vejo no projecto, com mais degrau ou menos degrau. Muito obrigado.»